

Auto-retrato em Magritte
para o victor

Numa densidade obliqua de braços,
num continuum rotativo de baile
com orquestra,
dobro na dobra
dobro no canto
sobro no dobrar
dobro segundo o vinco
Risco com a unha
unha que dobra
a dobrar, riscando
A vincular o vioncelar
do violino e a desafiar-me o final.
Entre o concerto e o salao
entoa-se a derradeira sonata com chuva
apagando as notas.
Musica para tempestade e entrega de prémios :
Andante comodo
Allegro furioso
Rondo galante
Concerto pra uma mulher
em plena corrente de ar.
( asma com muita afliçao)
Três suspiros e espirros com notas altas.
Hipertensao musival genética.
Pacé, junho de 2008.

Este bem soa a demais.
habituado a ficar em conta,
minguando a lingua,
Galante entrou na carvoaria
e rezou para que tudo
fosse verdade.
Vestia a samarra do tio,
um presente em segunda-mao.
Era de poucas falas e nada
ou pouco desejava.
Sentiu subir o calor da tontura
consumir-lhe a carne.
Se ela viesse agora, de voz cristalina,
romper este escuro, o preto sujo nas mangas,
no colarinho, nas unhas…
E correu feito louco, lavar-se no rio.
Esfregou-se até ficar bem limpo.
Enxugou ao sol como roupa lavada
e sonhou que amava Cruz.
Esperou em vao pela noite fora
que ela viesse provar-lhe um beijo.
Ficou impar neste amar,
mas deu a volta por cima.
Desfez-se do casaco do tio,
da sua samarra.
Nunca mais olhou para a janela
do r/c onde aparecia Cruz,
sorrindo de boca aberta
e seio em alvo branco.
Mas mesmo depois de velho,
Galante guardou o peito quebrado
quando lhe passava à porta.
Cruz tinha-se vendido ao tio,
que num ataque de ciumes
a tinha jogado como um trapo,
na fogueira de carvao,
enrolada na tal samarra.
Tragédia consumida.
Lembrou-se entao de ter cozido
por dentro das algibeiras,
alguns recados amàveis e palavras
de amor e desejo.
Quando lhe falavam no drama,
Galante mordia o beiço
e escondia as unhas pretas,
mais dorido que traido.
A vergonha nao se descoze tao depressa,
pensou.
Cruzou a perna sentado ao relento
à espera da noite,
na pedra do chafariz de baixo.
Lidia martinez
Pacé, 1 de junho 2008

Raizha
No pior dos frios Raizha soletrou palavras
desconhecidas e foi perdendo os dentes
como perolas de um colar desfeito.
Um peixe amargo chegou na maré,
tarde demais para escalar ou salgar o conduto.
O vento desmanchou-lhe o corpo.
Viu depois a fome saltar como coelhos gigantes
perseguidos por lanças certeiras.
Caiu de borco à beira-mar com o sol deitado na agua.
Ouvi os afogados cantarem so com os lhos.
Estranhos anoes de pedra romperam
longiquos comos farois.
A maré lambeu Raizha até nao sobrar nada.
O rastro de uma anel teimoso num dedo inchado,
deu à costa para là do pontao.
LM, mars 2008

DESEMPREGO
Violeta prepara-se para sair de casa.
Veste saia e casaco, como dantes.
Empurra o portao entalando um pé na dobra de ferro,
e numa pressao nervosa, deixa balançar o corpo.
Entra no jardim e deixa-se cair na relva.
Violeta tem as maos pequenas, os dedos redondos
unhas rentes para melhor bater no teclado.
Abre os olhos para o céu até doerem.
Bebe no repuxo o esguicho de aguia fria.
Lembra-se em menina a sede a roer-lhe a alma
e os dentes a estalarem!
Senta-se no banco e estremeçe.
Tem medo e começa por experimentar a fome,
para ver.
Quem sabe?


Anca vencida à esquerda, pé descalço e unha acerada
a riscar a barriga da perna, devagarinho.
O corpo adormecia desapegado no encombro do parapeito.
Nao sabia contar o tempo que ali passava.
A tristeza era infinita e sereno o prazer que nao escondia.
Trazia na face a mascara do vicio e da queda.
O resultado fora imediato…o marido dera o fora,
era um mà–rolha, ela descaira.
Deixou-a com a bufarra a margiar-lhe o sexo
e com muitas petas a tinha mantido presa.
Depois de muito seresmar, Briquita decidira mostrar
o retrato que lhe ia na alma.
e o desassosego a pintar-lhe o retrato.
*briquitar- lidar, marejar, cismar
LM, 16 de março de 2008
Leio precipitadamente o teu nome
riscado no meio de umas palpebras vazias.
O bule de cha estala num feitiço de ervas.
Uma peça unica do enxoval e partilhas.
Aceito dar a cara neste mastigar viciado
em teu nome.
Fico tolhida no meio da minha praia.
Por detras, um espelho contigo ausente.
O teu nome como vicio talhado
a gillete azul no meu pulso.
Um somatorio, o as da cicatriz.
Salgo as feridas e abro o olho mortiço.
Leio o teu nome tatuado no céu da boca,
lambo-lhe a vogal.
Vagueio viciada nele.
LM. Março 08

O grito
Num desconforto voraz de cristalinas dores,
ais e males espantados,
sinto-me pronta a abanar as maos à janela,
como trapos.
Deixo cair o corpo para fora do parapeito,
a cabeça pesada leva o resto.
Ainda ouvi de raspao soar um grito
mas jà nao era o meu.
O peito queimou a seda,
vinha a arder.
A calçada cresceu em labirintos
desalinhados, perto do meu olho pintado.
Ao sacudir a colcha ao sol,
alguém observou tremendo,
o bailar assimétrico
de umas pernas largadas no chao.
Pacé, 1.06.08
LM