mardi 10 juin 2008

dimanche 8 juin 2008

Textos em avulso









Crime passional

Numa densidade obliqua de braços,

num continuum rotativo de baile

com orquestra,

dobro na dobra

dobro no canto

sobro no dobrar

dobro segundo o vinco

Risco com a unha

unha que dobra

a dobrar, riscando

A vincular o vioncelar

do violino e a desafiar-me o final.

Entre o concerto e o salao

entoa-se a derradeira sonata com chuva

apagando as notas.

Musica para tempestade e entrega de prémios :

Andante comodo

Allegro furioso

Rondo galante

Propriedade privada

Concerto pra uma mulher

em plena corrente de ar.

( asma com muita afliçao)

Três suspiros e espirros com notas altas.

Hipertensao musival genética.

Pacé, junho de 2008.

vendredi 6 juin 2008






Contos

A samarra do tio

Este bem soa a demais.
habituado a ficar em conta,
minguando a lingua,
Galante entrou na carvoaria
e rezou para que tudo
fosse verdade.
Vestia a samarra do tio,
um presente em segunda-mao.

Era de poucas falas e nada
ou pouco desejava.
Sentiu subir o calor da tontura
consumir-lhe a carne.
Se ela viesse agora, de voz cristalina,
romper este escuro, o preto sujo nas mangas,
no colarinho, nas unhas…
E correu feito louco, lavar-se no rio.
Esfregou-se até ficar bem limpo.
Enxugou ao sol como roupa lavada
e sonhou que amava Cruz.
Esperou em vao pela noite fora
que ela viesse provar-lhe um beijo.
Ficou impar neste amar,
mas deu a volta por cima.
Desfez-se do casaco do tio,
da sua samarra.
Nunca mais olhou para a janela
do r/c onde aparecia Cruz,
sorrindo de boca aberta
e seio em alvo branco.
Mas mesmo depois de velho,
Galante guardou o peito quebrado

quando lhe passava à porta.
Cruz tinha-se vendido ao tio,
que num ataque de ciumes
a tinha jogado como um trapo,
na fogueira de carvao,
enrolada na tal samarra.
Tragédia consumida.
Lembrou-se entao de ter cozido
por dentro das algibeiras,
alguns recados amàveis e palavras
de amor e desejo.
Quando lhe falavam no drama,
Galante mordia o beiço
e escondia as unhas pretas,
mais dorido que traido.
A vergonha nao se descoze tao depressa,
pensou.
Cruzou a perna sentado ao relento
à espera da noite,
na pedra do chafariz de baixo.

Lidia martinez

Pacé, 1 de junho 2008

Contos(posté en mars 08)









Raizha

No pior dos frios Raizha soletrou palavras
desconhecidas e foi perdendo os dentes
como perolas de um colar desfeito.
Um peixe amargo chegou na maré,
tarde demais para escalar ou salgar o conduto.

O vento desmanchou-lhe o corpo.

Viu depois a fome saltar como coelhos gigantes
perseguidos por lanças certeiras.
Caiu de borco à beira-mar com o sol deitado na agua.
Ouvi os afogados cantarem so com os lhos.
Estranhos anoes de pedra romperam
longiquos comos farois.
A maré lambeu Raizha até nao sobrar nada.
O rastro de uma anel teimoso num dedo inchado,
deu à costa para là do pontao.

LM, mars 2008


jeudi 5 juin 2008

Contos







DESEMPREGO

Violeta prepara-se para sair de casa.
Veste saia e casaco, como dantes.
Empurra o portao entalando um pé na dobra de ferro,
e numa pressao nervosa, deixa balançar o corpo.
Entra no jardim e deixa-se cair na relva.
Violeta tem as maos pequenas, os dedos redondos
unhas rentes para melhor bater no teclado.
Abre os olhos para o céu até doerem.
Bebe no repuxo o esguicho de aguia fria.
Lembra-se em menina a sede a roer-lhe a alma
e os dentes a estalarem!
Senta-se no banco e estremeçe.
Tem medo e começa por experimentar a fome,
para ver.
Quem sabe?

Paris, 6 de março de 2008

Contos pequenos, tema Os Vicios, post jà publicado














BRIQUITA


Briquita deixava-se estar à janela horas a fio.

Anca vencida à esquerda, pé descalço e unha acerada

a riscar a barriga da perna, devagarinho.

O corpo adormecia desapegado no encombro do parapeito.

Nao sabia contar o tempo que ali passava.

A tristeza era infinita e sereno o prazer que nao escondia.

Trazia na face a mascara do vicio e da queda.

O resultado fora imediato…o marido dera o fora,

era um mà–rolha, ela descaira.

Deixou-a com a bufarra a margiar-lhe o sexo

e com muitas petas a tinha mantido presa.

Depois de muito seresmar, Briquita decidira mostrar

o retrato que lhe ia na alma.

Absorta no seu cismar, nem dava conta do pecado

duma tal melancolia.

Secou ao sol e ao vento, com o olho aveludado

e o desassosego a pintar-lhe o retrato.

*briquitar- lidar, marejar, cismar

LM, 16 de março de 2008


" vagueio viciada"

Leio precipitadamente o teu nome
riscado no meio de umas palpebras vazias.
O bule de cha estala num feitiço de ervas.
Uma peça unica do enxoval e partilhas.
Aceito dar a cara neste mastigar viciado
em teu nome.
Fico tolhida no meio da minha praia.
Por detras, um espelho contigo ausente.
O teu nome como vicio talhado
a gillete azul no meu pulso.
Um somatorio, o as da cicatriz.
Salgo as feridas e abro o olho mortiço.
Leio o teu nome tatuado no céu da boca,
lambo-lhe a vogal.

Vagueio viciada nele.

LM. Março 08


mercredi 4 juin 2008






Textos em avulso

O grito

Num desconforto voraz de cristalinas dores,

ais e males espantados,

sinto-me pronta a abanar as maos à janela,

como trapos.
Deixo cair o corpo para fora do parapeito,

a cabeça pesada leva o resto.

Ainda ouvi de raspao soar um grito

mas jà nao era o meu.

O peito queimou a seda,

vinha a arder.

A calçada cresceu em labirintos

desalinhados, perto do meu olho pintado.

Ao sacudir a colcha ao sol,

alguém observou tremendo,

o bailar assimétrico

de umas pernas largadas no chao.

Pacé, 1.06.08
LM