jeudi 21 août 2008

o caminho dos lobos








Caminhos dos lobos

O pombo corria sem saber onde cair morto.
Torceu o pescoço e ficou quedo,
algo torcido
a cabeça pousada na pedra
parecia um homem cansado de voar,
destroçado por uma longa pena

ou uma doença prolongada.

Desceu à terra, assustou-se e cedeu à mao forte
do destino ou à brusca decisao algo divina.

Passou à arma à esquerda frente
ao n° 100
da rua dos Remédios.
Adormeceu para sempre com a asa levantada
contra a ténue brisa, resistindo, resistindo ,
resistindo.

LM 2006

lundi 18 août 2008

A ultima carta




















( ...) Vivo agora e posso morrer jà,
tanto este mistério me é favoràvel
e se conjuga à desordem que anima o meu sentir.
Nesta hora de exaltaçao pura, nao chamo por ninguém.
Nem por ti, mesmo que saiba onde vives e esperas.
Nao consinto que neste momento de irrealidade,
e profundo amor por tudo o que vive
e me està proximo da mao,
venha a tua dùvida perturbar-me a mente.
Estou nua e viva e nao penso em nada.
Esta brisa é fresca e cortante, a pele enrija
os dentes juntam-se, cerro os punhos,
sei que devo guardar tudo,
mesmo os gestos mais bruscos e doridos.
Muros, ruinas e musgos frescos na sombra.
Ah se fôr hoje o dia da traiçao e do punhal,
saberei dizer à minha carne que nao sou corrupta
como ela.
Estou a inchar de medo neste amor profundo,
como um ventre doente e dorido.
Tenho na pele escrita por dentro o teu nome pintado.
Como a santa limpando o nome do Senhor,
avanças-te o linho
que me era a carne, e por dentro,
por dentro limpaste o rastro frio
do teu coraçao.
Foi como naquela ultima noite em ti,
onde através das tuas palpebras
eu via o teu sonho, e as flores eram o orvalho juntinho
como pérolas e bùzios,
tanta imaginaçao me dava febre
e a tua mao na minha eu nem respirava.
Beijava-te os dedos um a um e recomeçava
contando até mil, para que a noite fosse mais longa.
Punha-me a fechar os olhos e a pedir a Deus
que voltasse ao inicio do mundo para te puder esperar.
Jà é outra vez manha para todos nos, devo-me vestir,
tratar dos que me rodeiam, voltar a ser outra e sem vontade.
Junto a eles rezo coisas sem nexo e o amor é tanto
que o sorriso me acolhe na sua boca oferecida,
encontro toda a leveza do meu pecado.
Lavo neste rio os braços e as maos
que te rodeiam quando neles te enrolas.
Deixo-os assim ao gelo, redondos e suspensos,
quero oferecer a coroa deste corpo
a um ausente, e até que a dor se desvaneça,
sem ter ninguém para me reter.

( extracto da ultima carta de amor de Inez a Pedro) LM, Paris Abril de 2005

jeudi 14 août 2008














O rapto da memoria


o outono despe a natureza
e vou cumprir o sucedido.
a sincope do rapto
nao me poupa.
levo no dedo o corte
e na agulha a linha.
parto o dente com a pedra,
em cheio no làbio.
limpo com a renda e envolvo tudo nela.
quando eu arder no sulco càvico
da mina, abre entao o segredo
e espreita o esmalte.
hei-de coser as palpebras entre elas
e abdicar do escuro por fora.
fico com a luz que me dou
quando te penso.
mexo-me.
ato as pernas com os atacadores.
estou envolta em silêncio
e o homem jà nao se passeia
mais pelo meio.
este espaço està desertado.
vou-me integrar e sair pela cabeça.
adeus agora.
vejo-me no tecto
e saio pela porta fechada no trinco.
repito adeus sem som, nem maos,
nem asas levantadas contra o vento.
jà nao preciso de empurraozito
para voar.
é so luz amor.
esqueci-me de rezar,
oiço as Parcas a fiarem.
atravesso o desert de Léthé,
recomeço a beber as gotas do rio amélés,
le " sans-souci".
acontecerà um novo viver sem nos dentro.
sinto que nao te vou puder esqueçer,
escreverei isto mais tarde em azul,
apos o primeiro déjà vu.
serà que me vou lembrar?

LM, paço de arcos, julho de 2008

vendredi 8 août 2008

Ser Perséphone

[portrait-vertnoir.jpg]

abro este verso com um estalido.
provo-lhe a semente
e vou engolir o vacuo
esvaziando o mundo.
deixo-me ir pelo ralo
sem limpar à volta
o sedimento gira
e desaparece.
desfio o adesivo
abro a boca à ferida
sinto o cheiro azedo
que exala o sangue.
a cola pinta o rastro
dos pontos, o enigma
da cruz arrepela-me.
pernas para que te quero,
vou sair daqui depressa.
sou o grilo maior que a janela,
a espernear face a uma ingénua
crueldade.
o enigma da infância
desses dias perfurados,
como dedos nos gatilhos
a experimentarem os alvos
atirados ao ar.
Poule!
madrugadas em avanço,
sonhos apocalipticos,
mares levantados
com pontes estreitas,
e os meus pés a escorregarem
sobre no gelo das ondas.
vou cair agora mesmo
e tudo vai recomeçar,
paro com as dores
a pele alisa em estatua
sem po.
afasto a cortina no meio do frio,
desfeio, certa que vou renascer.
o rei absoluto provoca uma
alteraçao e acolhe-me
na concha.
Sou Vénus e arrebata-me
o coxo.
esperneio no fundo da terra
à espera de primaveras,
e a roma abre-se de novo.
posso florescer ao pé da minha
Deméter, usufruir da luz
escapo à chaga e ao fogo,
ao ferro ardente.
tenho quatro maos dentro de mim
a cozerem pao e afiarem o linho.
hei-de esperar o secar
da macela, fazer-te chà para
te acalmar as visceras.
planto beijos nas tuas coxas
quentes.
por instinto caço como um cao
e preparo-te um met
digno das minhas preces
que te acompanham
o sono e me alimentam o corpo.
quero que penses agora
que so o teu falar me arranca
do coraçao a tristeza.
quero uma melodia grave
e sobressaltada,
oficina bem o teu cantar,
desfia à fenda o sangrar
do meio corpo.
pensador, prova-me o final
deste agravo, limpa o prato com a lingua,
bebe-me e observa-me nos olhos
a distância e o caminho.
abandona-me agora.
foge-me.

LM, 2 agosto, 08.

mercredi 30 juillet 2008

A Barca dos infernos

Um drama singular,
uma atroz dilaceração,
um grão de arroz fendido
obliquando a face mínuscula
e opaca do desperdício.

Sobrevivemos juntos,
como um só corpo,
neste quarto de agonizante.
Sacrificio natural de um ser
desviado do sol.

Cresce-nos dentro da alma,
ao de leve,
a pena descaindo da sua asa.

Inclinando a escrita rente à pele
fica escrito pela unha,
a rima juneira e festiva.

Ficamos amplamente desconhecidos,
de olhos esguios como gatos na noite.
Respiramos sem nos vermos,
ignorando o rumo lutuoso da barca.

Julho, 17.
08

dimanche 20 juillet 2008

gostas de amoras?

Ateado, o desesperante
aveludava a língua
e o beiço devorando
amoras quase azuis
de doce e tinta,
os dedos em farrapos
nao sentiam o rasgão
no espinho.
Era todo um edredão
violeta de sangue.
E ele, em lume
ardia disforme
numa entropia
oferecida aos deuses.

17 de julho 08
lisboa

mardi 1 juillet 2008

um adeus perfeito















Rocei-te a face como se fosses um filho meu

ou um irmao criado junto ao seio gémeo
da mesma mae.


a minha fadiga nao é partilhavel.

" um adeus perfeito" ediçoes ulmeiro, 1994.